Sábado passado, dia 11 de Dezembro de 2004, aconteceu no salão do governo argentino, a mesa de Diálogo entre Jovens e Especialistas da CoP 10. Sem dúvida a principal atividade dos jovens durante o evento e uma das mais importantes de toda CoP, uma vez que foi uma das únicas atividades em que delegados e observadores puderam intervir, questionar, perguntar e cobrar posições e explicações dos membros da mesa.
A dinâmica das CoPs acaba por não facilitar esse tipo de participação. Nas sessões apenas o negociador representante de cada país pode falar, e mesmo nos eventos paralelos, onde os observadores (representantes de ONGs do mundo inteiro, e delegados oficiais que não representam o Brasi em nenhuma negociação) participam mais ativamente; é muito difícil conseguir a palavra.
Uma de nossas preocupações era justamente garantir que a presença dos jovens fosse reconhecida. Havia o medo de que todos os esforços realizados para garantir o espaço da nossa participação fosse em vão. Mas a prova do contrário foi, sem dúvidas, esta mesa de diálogo!
Cecilia Iglesias da Red Ambiental, e copordenadora da iniciativa, iniciou a mesa dando as saudações de boas vindas a todos, apresentando as organizações promotoras e explicando o objetivo da Mesa. Juliana Robledo da Fundación Cambio Democrático explicou como seria a dinâmica da mesa e facilitou todo o processo, com a colaboração de Tómas Levi.
O Brasil estava representado por 2 jovens, Helena Magalhães Gomes e João Felipe Scarpelini, que integraram a mesa com outras jovens liderancas da Argentina e Peru.
A sala estava lotada, e além de muitos jovens (muitos que só tiveram uma credencial especial para entrar somente neste evento!) havia muitos adultos delegados, observadores, jornalistas entre outros interessados. Por decisão dos participantes, a mesa foi transformada em uma roda de cadeiras para facilitar a interação e possibilitar que todos pudessem se ver! A princípio, haveria dois momentos, mas o evento superou as expectativas, e um terceiro momento aconteceu ao final.
Para começar, uma rodada de apresentação dos jovens que estavam na mesa! Logo de início já pudemos perceber que a coisa seria boa, havia representantes de diversos segmentos da juventude, como movimento estudantil, povos indigenas, ONGs, universidades, entre outras...
Na primeira parte, Juliana Abbiati da Fundación Hernandiana apresentou cada um dos especialistas presentes na mesa, que foram: Jonathan Pershing do World Resourches Institute, Bonizella Biagini do Global Environment Facility (GEF) e Kiliparti Ramakrishna do Woods Hole Research Center.
Como Jonathan foi o primeiro, tracou um rapido panorama sobre as mudanças
climáticas pelas perspectivas científica e política, que serviu de pontapé inicial para as perguntas. Ele levantou polêmica com sua posição um tanto pessimista ao dizer que não há muito a se fazer. E que enquanto os países continuarem pensando apenas em suas prioridades, continuaremos caminhando no mesmo caminho errado de sempre!
Logo em seguida falou Boni Biagini, que contou um pouco de sua experiência de ter começado seu trabalho em ONGs e todo o caminho até o Banco Mundial. Cremos, por certo que sua fala foi uma das mais empolgantes!
Ela ressaltou momentos que foram marcantes em sua vida, como na Cupula da Terra da Rio 92,quando estava começando a desacreditar que haveria solução para um mundo sustentável, e teve a certeza de que estava no caminho certo quando ouviu pela primeira vez na ECO92 que o tão buscado desenvolvimento deveria estar relacionado com o meio ambiente.
Também aproveitou para aconselhar todos os jovens ali presentes. Disse, por exemplo, que às vezes as COPs podiam ser difíceis de serem conpreendidas e até mesmo cumpridas, mas que mesmo assim, era nosso dever seguir participando das decisões ali tomadas. Alertou também que não podíamos nos entregar, teríamos que continuar firmes colocando nossas opinioes.
Depois foi a vez de Kiliparti Rama contar sua experiência, como uma das pessoas que participou da criação da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas. Ele foi contra a posição pessimista de Jonathan, e pediu que não deixássemos essas coisas nos desencorajarem!
Contou como é decepcionante ver muitas sessões, porque cada país defende apenas a sua própria agenda e não estão preocupados com a ajuda e colaboração internacional.
Respondeu uma das perguntas dizendo que nunca saberemos o real significado de estarmos trabalhando desde já! E disse que ver jovens dispostos a levar seus ideais adiante é algo que consegue dar novas energias e fazer com que continue trabalhando!
Todos responderam perguntas de todos os participantes. Boni por exemplo, como a representante do GEF - Fundo Mundial para o Meio Ambiente (uma divisão do Banco Mundial para tratar da área ambiental), explicou as oportunidades existentes para o finaciamento de projetos de organizações da sociedade civil e de juventude, especialmente atraves do Small Grant Program – um programa para financiamento de pequenos projetos. E quando perguntada pelo representante brasileiro a respeito da participação de juventude dentro do banco, contou para os participantes e observadores um pouco sobre a experiência realizada no Brasil por meio do Vozes Jovens que agora esta sendo um exemplo para o mundo!
As discussões pararam um pouco para um rápido coffee break, logo em seguida começou a segunda parte da mesa...
Então os especialistas foram Osvaldo Canziani do Painel Intergovernamental sobre as Mudancas Climaticas e o Sandy Gauntlett, representante indigena Maori da Global Forest Coalition.
Dr. Canziani, um respeitado cientista e pesquisador argentino começou a segunda sessão com um panorama sintético e claro sobre as mudanças climáticas, focado na questão política.
Sandy Gauntlett falou sobre a participação indígena na Convenção Quadro da Nações Unidas e respondeu a muitas perguntas. A grande maioria tinha como foco os povos originários (conceito utilizado para representar indigenas, aborigenes, enfim, povos que deram origem a outros povos).
O Brasil, mais uma vez chamou atenção, ao começar sua fala dizendo “Kia Ora”, um comprimento tradicional Maori, para introduzir a pergunta a respeito do preconceito sofrido pela juventude Maori pela questão da idade, somado à discriminação racial. Sandy mostrou-se contente, e confessou-se lisonjeado pelo gesto dos representantes Brasileiros, que mostraram conhecer um pouco de sua cultura.
Alguns representantes indígenas de comunidades locais que estavam como observadores pediram a palavra e emocionaram os participantes da sala com o depoimento a respeito da relação deles com a “mãe terra”, e explicando a divisão dentro das tribos, onde não se separam jovens, adultos, idosos, mas tem-se um povo único e coeso!
Algumas visitas nobres apareceram no evento. Dando abertura a um terceiro momento!
O primeiro a aparecer foi Atlio Savino, Secretário de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Argentina, que integrou-se à mesa destacando a significativa importância da opinião dos jovens nos processos de médio e longo prazos. Mais um vez manifestou seu apoio à iniciativa juvenil, saudando os participantes com um breve resumo da posição argentina na CoP 10, focada na negociação de um processo paralelo e pós-Kyoto, e a adaptação às mudancas climáticas. (Lembrando que o Protocolo de Quioto entrará em vigor no dia 16 de fevereiro de 2005!!!).
Logo depois, chegou à mesa Ricardo Sánchez Rosa, diretor do Escritório Regional para a América Latina e Caribe do Programa das Naçoes Unidas para o Meio Ambiente – PNUMA. Ele participou da mesa de diálogo apresentando algumas das iniciativas que tem sido desenvolvidas pelo PNUMA em parceria com os jovens, como o GEO Juvenil, que está comecando no Brasil! E mostrou-se muito feliz de ver que nós jovens havíamos realmente conquistado o espaço para uma participação significativa na CoP. Ele foi um dos caras que mais apoiou a participacao jovem na CoP!!!
Como se ainda fosse pouco, para a alegria e surpresa de todos, Joke Waller-Hunter Secretária da Convenção apareceu pessoalmente, acompanhada por Bárbara Black, responsável pelas relações com as ONGs. Conseguiram um espaço em suas agendas para participar da mesa.
A Sra. Waller-Hunter chegou dizendo que teria apenas 10 minutos, e acabou ficando por mais de uma hora!!! Ela demonstrou ser uma mulher acessível e franca. Se mostrou muito entusiasmada com a participação dos jovens na CoP, e nos contou sua visão a respeito do que está acontecendo em relação à participação de juventude dentro da convenção.
Mas como ela mesma disse, não estava lá para falar, mas para ouvir, e pediu que nós contássemos nossas iniciativas!
Juliana Abbiati (Fundación Hernandiana) explicou que estávamos realizando um boletim dos jovens para os jovens, com o objetivo de “levar a CoP para fora das salas da convenção”. Alertou ainda que a Convenção Quadro das Nações Unidas e as CoPs possuem uma linguagem muito complexa e que é necessário simplificar para que cheguem para a sociedade civil em geral.
Damián Profeta (Vientos del Sur) apresentou a Estratégia de Continuidade e ressaltou que queremos que esta seja uma base para as próximas participações juvenis nos processos de negociação internacional; razão pela qual é necessario transmitir a experiência e difundir os ensinamentos oferecidos.
Waller-Hunter se mostrou entusiasmada com a idéia, dizendo que dessa maneira estaríamos à frente de uma mudança muito importante para a Convenção, porque sempre há jovens pedindo espaços, mas até hoje, não houve nenhum que tenha se proposto a discutir um processo contínuo como estamos fazendo agora!
Marina Mansilla Hermann, da Peace Child Argentina, expôs sobre a iniciativa da Declaração e Proposta Jovem sobre as Mudanças Climáticas e reafirmou que estaremos trabalhando nos próximos dias para que esteja disponível, a partir de quarta-feira, para ser distribuída aos países participantes, onde vamos buscar apoios para nossa declaração!
Outros jovens fizeram ainda algumas perguntas para a Secretária e para o diretor do Escritório Regional para a América Latina e Caribe do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente – PNUMA que seguiram respondendo atenciosamente.
Antes de encerrar o encontro, Cecilia Iglesias (Red Ambiental) explicou a Sra. Waller-Hunter que um dos pontos da nossa Declaração seria a criação de uma comissão de trabalho juvenil permantente dentro da CoP para que, como ocorre nos grupos de oganizações empresariais, indígenas e outras ambientais, a participação dos jovens possa ser assegurada!
Ao término da mesa, uma foto para recordação!
...E foi muito engraçado ver a Sra. Waller-Hunter em pessoa, esbanjando simplicidade e simpatia enquanto ajoelhava-se no chão para participar da foto estilo time de futebol!!!
Sem dúvida o espaço foi conquistado com muito sucesso, depois disso, agora temos um contato mais próximo com a secrátaria executiva da CoP e também mais respeito por parte dos delegados e dos governos aqui participantes!